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O inferno são mesmo os outros?
14/10/2009
Há três meses entrou uma nova funcionária em meu setor. Desde o começo, ela vem me atropelando, executando tarefas que competem a mim e gabando-se de seus feitos. E, além disso, ela não sai da sala do gerente. Tenho oito anos de casa e desconfio que essa colega está tramando algo contra mim...
Ah, o mundo corporativo seria uma beleza, não fosse a existência de um persistente grupinho chamado “os outros”. Quando tudo está tranquilo, quando tudo parece melhorar, quem surge para atrapalhar? Os outros. São o calo em nosso sapato profissional. A catarata em nossa visão de longo prazo. Mas vamos olhar a situação pelo lado inverso. A nova colega é pró-ativa e usa marketing pessoal. Para uma carreira, são habilidades positivas e necessárias.
A outra também não parece ter cruzado a fronteira. Essa é uma desconfiança de nossa leitora, não um fato. Nesse caso, o que existe é competição, e não conspiração. Já que os outros são inevitáveis no mundo corporativo, o melhor que nossa leitora pode fazer é contra-atacar com as mesmas armas: mais eficiência e propaganda. Só assim poderá reverter a situação e se tornar a outra na vida da outra.
Tenho 17 anos e quero fazer uma faculdade. Meus pais insistem que eu faça um curso técnico, porque assim eu teria uma profissão. Não entendo a lógica deles. Direito e engenharia não são profissões?
Sim, são. Mas, no mercado de trabalho atual, há muitos engenheiros trabalhando em vendas, muitos bacharéis em Direito, psicólogos e jornalistas trabalhando em áreas administrativas. A profissão que eles declaram no Imposto de Renda é, de fato, a que está no diploma.
Mas não a que está no cartão de visita ou na descrição de cargos da empresa. O diploma do curso superior permitiu a entrada no mercado de trabalho, mas não na área de formação. No caso de um curso técnico, é o contrário: na maioria dos casos, a profissão diplomada é a profissão exercida.
Existe uma razão para isso. Há dez anos, o mercado de trabalho tem escassez de técnicos e excesso de formandos com curso superior. Assim, quem tem um diploma de técnico consegue emprego mais rápido, e na área em que se formou.
Quem tem diploma de curso superior demora mais para descolar um emprego, e não necessariamente na área de formação. O caminho mais indicado para uma carreira é ter um bom curso técnico, empregar-se e depois partir para uma faculdade, enxergando com clareza a melhor direção a ser seguida. Os pais de nosso jovem leitor podem não ter explicado bem no que estavam mirando. Mas acertaram na mosca.
Por que ninguém lhe escreve para elogiar uma empresa?
Pelo mesmo motivo que faz com que as pessoas só se lembrem da companhia fornecedora de energia elétrica quando falta luz. Quem está satisfeito com seu trabalho, qualquer que seja o grau de satisfação, acredita contribuir com seu talento e seu esforço – e receber remuneração condizente em troca. Logo, não há o que elogiar.
Certamente existem no Brasil profissionais ganhando bem mais do que merecem pelo que fazem. Mas, estatisticamente, eles não contam. Nem escrevem.
fonte: Revista Época
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